segunda-feira, 31 de maio de 2010

A Caça e o Caçador


Esse texto é sobre a morte...


O mar é Kalunga
A
morte é Kalunga
A fatalidade é Kalunga,
O trabalho escravo é Kalunga

Olha só, quem falou isso foi um cara chamado Antônio Agostinho Neto, um poeta angolano, lá do Bengo, que por acaso deu nome a uma rua onde eu morei e que, não por acaso, liderou a revolução em Angola, onde eu também morei. Não sou nenhum conhecedor da obra de nenhum poeta, sinceramente, quero mesmo é que os poetas tomem jeito e comecem logo a trabalhar. Mas não deixa de ser irônico o fato de que os angolanos encarem o mar desta maneira. Kalunga, em suma, quer dizer mesmo "mar", ou seja, onde tudo acaba, como qualquer idiota pode concluir, facinho.


Capítulo 1: O mergulho de dentro pra fora


Segunda-feira passada, lá estava eu, num barco, num oceano que eu nem sei qual é, tipo ali na divisa do Índico com o Atlântico, tecendo grunhidos de agonia, seguidos por jatos de vômito que caíam generosos em cima de tubarões brancos exibidos, em algum ponto bem escroto da costa sul-africana.

Passagem comprada, revista fechada, decisão tomada, pé na estrada!
Saíram de Maputo felizes da vida, dois amigos, determinados a ter uma semana desvairada na belíssima Cape Town, um tipo de Rio de Janeiro africano – numa análise bem porca –. O garotão de vinte e seis anos sabia bem a vidinha medíocre que deixava sem remorso pra trás, assim como tinha consciência do glorioso futuro que tilintava como um neon de puteiro da Augusta em cada direção que apontasse seus sonhozinhos delinquentes. Orgulhoso de sua inteligência resistente às mais duras provas, tragos e estragos, gozava de certezas inexplicáveis aos reles desconfiados e inabaláveis diante aos árduos testes de sobriedade impostos por uma ou outra desventura.
A menina completava vinte anos, abandonada lá em Moçambique, pingando em seus próprios is, como se cada i fosse o mais complexo pictograma chinês.
Não era complicado pro rapaz acompanhar essa transição caligráfica que emendava a vida da menina durante as duas semanas que antecederam a viagem e separavam o casal. Tanto que ali, solto nas ruas descoladas da Cidade do Cabo, cada post, cada scrap, cada e-mail, cada SMS digitados pela menina nos dias desesperados de abandono, editavam-se num livro tão bem escrito, que o cérebro tunado do pequeno adulto, tão espanado pelos vícios e pela Marvel Comics pediu arrego. Foi aí que o coração e tomou o timão.

Capítulo 2: Morte é igual ao amor


Foi medo de ver ela morrer, foi medo de ver a filha dela morrer, foi medo de morrer. Foi só isso que me fez voltar e dar algum valor à tudo o que tinhamos e podíamos vir a ter. Foi medo da morte. Medo da morte é um tipo fodão de amor, pelo jeito. Sabe-se lá porque (ou até sabe-se), mas esse medo tomou conta de todo espaço e sufocou o tempo, de maneira que o resto ficou pra depois e só sobraram nós dois, presos ali no quanto antes.

Voltar, casar, blá, blá, blá. Amor eterno é a bola da vez. Novas regras, novos planos, novas lágrimas, novos gozos. Lá vão os dois, de volta.
Assim que o gajo regressou à Maputo, esconderam-se num quarto de hotel de cortinas pesadas onde puderam submeter-se ao plano traçado via Skype, nos dias em que estavam separados pela ponta sul do continente africano.
Depois de três dias e muitos quilômetros rodados pelos corpos em cima da cama do hotel no Bairro da Polana: Swazilândia! A caravana de amigos seguia animada rumo as montanhas do reino swazi, vizinho de Moçambique pra um fim de semana regado a música, gargalhadas e toda a sorte de diversão fácil.
No domingo, carregado de nuvens cinzas e de ressaca, o amigo bate na porta para dar a notícia: "Avisa aí que o pai dela morreu".
Ele não avisou nada, voltou pra cama, deitou com ela, dormiu mais um pouco, tomou o café da manhã com ela. Avisou. Abraçou, chorou e não tirou nunca mais a mão do coração dela.

Capítulo 3: Rui


Enquanto eu almoçava com toda a família e contava a minha experiência estúpida sobre o mergulho frustrado com os tubarões brancos na África do Sul ele replicava orgulhoso: "Nessa região aí que você foi vomitar eu matei uns dois ou três tubarões..."

Aos nove anos de idade ele matou o primeiro búfalo, aos doze o primeiro elefante, aos cinquenta e tal já tinha matado quase todos os animais do planeta terra e teve finalmente a sua primeira filha, a Maria. Dezenove anos depois eu levava Maria e a neta do Rui pra morarem comigo. Estávamos noivos.
Nesta altura o Rui já era um velhinho, do tipo que aparecia lá em casa quase todo dia pra levar lichias e bolos de chocolate pra Luana, minha enteada. Na noite de sábado pra domingo, enquanto saltávamos animados ao som de Freshly Ground num festival de música pop africana da Swazilândia, meu sogro, o caçador mais famoso de Moçambique, vovô babão da minha filha postiça, portador orgulhoso de um dente de mamba-negra em uma de suas canelas, exterminador implacável de crocodilos-gigantes, andarilho incansável das savanas do continente negro, dos desertos mongóis, do pantanal mato grosensse, o matador de elefantes, o taxidermista de leões, tigres e urubus, sucumbiu, com teu velho coração de passarinho, ao cansaço e ao tempo, sentado na poltrona de sua casa, assistindo TV. Morreu dormindo.
Acordamos cedo hoje. Fomos vestir o Rui pro seu enterro. Acabou.

Capítulo 4: Viver


Às três horas da madrugada ele deveria estar dormindo ao lado dela, ainda mais depois de um dia como esse. Mas precisava escrever. A experiência no necrotério, com tanta gente morta jogada nos cantos, como lixo. O cheiro, o choro, o choro dela...
Mas não foi nada, fez tudo pelo teu sogro, com quem não tinha lá muita ligação, mas de quem, no entanto havia ganho, assim de mão beijada, as duas coisas mais importantes que ele ganhara na vida: o amor da mulher e da filha.
Ele tomou uma decisão, as coisas iam mudar pra valer dali pra frente. A vida chegou mesmo pra ficar.



10 comentários:

la increible aventura disse...

fodástico, cabra que tá no peito.

Sergio Aires disse...

muito bom, maiaze! grandão você!

Eva disse...

muito foda.

Rê Moraes disse...

desnorteei! lindo e comovente.

Zeca de Oliveira disse...

Eu diria algo melhor se houvessem palavras.

Talumba Katawala disse...

eipa Ze, nao ha palavras mesmo.

Baltas disse...

*clap clap* são palmas já que não há palavras.. rip

Patricia Aquarelli disse...

Zé só tu para fazer eu prestar atenção! Fizeste todos a pensar em nossas vidas...beijos amo-te amigo.

maria disse...

essa eh a melhor declaracao de amor e compromisso, a maior amostra de consideracao e concerteza a mais incrivel prova de amizade e confianca...nao so o que escreveu mas toda a sua postura perante todo esses momentos na minha vida. ontem vc esteve comigo em todos os segundos, do mais bonito ao mais agoniante e dificil. te amo pra sempre e com certeza sera o homem da minha vida.
te amo...muito...sempre

Paty disse...

Nossa! Palavras que me tocaram profundamente...mais do que palavras, os sentimentos expressos nelas!