segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Raimundo Fagner


Vista de uma paisagem de Mossoró num dia de inverno: não lembra a superfície do sol?

Uma placa na BR 340 indica que estamos a dez quilômetros de Mossoró, no Rio Grande do Norte. Mero capricho, do DETRAN, quem já ouviu falar na fama daquela cidade calorenta, percebe logo que não se trata de boato e que, diabos, existe uma fronteira entre o universo conhecido e essa bolha seca e flamejante onde algum retardado mental decidiu construir uma cidade a um tempão atrás. Retardado por retardado, eu chegava ao fim de uma viagem desde João Pessoa, de quase 500 km ao sul. O objetivo? Assistir Raimundo Fagner ao vivo, na Capital do Sal, a bela Areia Branca, pertinho de Mossoró!


Algumas semanas atrás um amigo me arrastava de Moçambique pra Paraíba usando como desculpa uma oportunidade de trabalho que surgia pra mim aqui nos confins do Nordeste. É claro que nada é tão simples como parece. Não demorou muito pra verdade vir à tona. À medida em que os dias passavam, ficava claro que Leonardo tinha somente uma coisa em mente quando me chamou até aqui. Leonardo, esse cara legal, de mau-humor cativante, tem uma estranha tara pelo trovador cearense, e não se contenta em perseguir Fagner por todo recôndito miserável por onde propaga suas borbulhas de amor: arrastar comparsas desavisados caatinga adentro, regados a cachaça Rainha parece ser seu passatempo predileto.


A Sombra de Um Vulcão
Deixamos as malas em Mossoró, a apenas cinquenta quilômetros de Areia Branca, na casa da simpática Gabão que nos cedeu os sessenta metros quadrados de azulejo de seu lar desmobiliado para que dormíssemos. Ninguém entende o quanto é bom dormir num chão de azulejo até conhecer Mossoró. Fora os frigoríficos da cidade, não existem lugares tão confortáveis quanto os ladrilhos de cerâmica barata. Seguimos pra cidadeziha praiana onde o show patrocinado com dinheiro público celebrava os sei lá quantos anos da cidade de Areia Branca. O dinheiro não tinha culpa, coitado, tava lá disponível. O aniversário da cidade, gaiato, foi se meter lá, às vésperas da eleição... O radialista da cidade escondia-se atrás da bateria da banda de Fagner, pela timidez inerente aos radialistas, pela confusão dessa coisa de aniversário com eleição, anunciando Raimundo, o Fagner, "mas não sem antes darem uma conferida nesse DVD que passa no telão".

Cinco minutos de belezas da cidade, asfaltos remendados, leitos de hospitais, negrinhos sorrindo e bombas de petróleo sugando o chão rachado pela estiagem depois, o astro entrava no palco, levando representantes de todas as gerações sobreviventes à seca nordestina da humanidade ao delírio.


A galera animada durante o show dançou pra valer (foto-montagem)

O show começou. Meninas de shortinhos apertados atarrachavam-se em forrobodó com jovens de mullets sararás. Um camarote VIP à esquerda ostentava toda a camarila da cidade que, sorria pro (do) povo em cima dos tapumes patrocinados pela onipresente prefeitura municipal. Entre nós e o palco, uma paisagem de crianças, jovens e velhinhos que, não fosse pelas diferentes alturas, formariam um altiplano de escalpos – a proximidade da cidade com o estado do Ceará ficava clara pelas fisionomias dessas cabeças.

Cavaleiro da Noite
A banda formada por dois gutarristas, um baterista enfurecido, dois tecladistas, um baixo e o excelente violeiro Fagner começou a me surpreender quando eu me dei conta de uma coisa: aquilo era um show de rock pesado! Um público que jamais acolheria a mais inocente das bandas emo, por medo do capeta ou da maconha, improvisava contorcionismo-forró debaixo de solos de guitarra nervosos, teclados psicodélicos, slaps violentos no contra-baixo e agudos fanhos do crooner que, canção após canção fazia até o mais senil dos espectadores balançar o esqueleto. Raimundo é um roqueiro pesado.

Fagner abandonou uma população bêbada e desgovernada, entregue à própria sorte e aos próprios votos naquela noite que nunca mais terminou. Nós, um grupo formado por mim, Leonardo e outros três programadores de internet com nomes estranhos demais pra eu escrever aqui nos divertimos, nos perdemos, carcomidos pelo forró que só acabou quando a impossível manhã chegou.


Pra Quem Não Tem Amor

Às sete horas, um par de graciosas bugres, maquiadas pelos três litros de cachaça Rainha generosamente entornados por meus companheiros de viagem, nos acompanhou até a praia para um passeio tétrico. Fagner, inconsciente de seus poderes mágicos, cravou conchas venenosas em meu pé enquanto eu, querendo ser um peixe, deflorava o oceano Atlântico com passos decididos em cima dos recifes da praia. Leonardo, motorista, aguardava com uma ressaca tântrica no carro, tentando fazer a cachaça evaporar com a força do pensamento, enquanto seus amigos tinham as vistas desembaçadas pelo sol que rachava aquela manhã no meio.

Salvaram-se todos, eles e as miúdas, que, sem a poderosa maquiagem d'aguardente perdiam suas belas curvas e argumentos sedutores que arrastou todo mundo até a estátua de Yemanjá que apodrecia num canto esquecido do litoral brasileiro.

Num último e solitário passeio, ainda me sobrou tempo pra um papo franco e sem futuro com um potro de olhar triste, que, apesar da minha língua enrolada, ouviu essa história toda com paciência. Num relincho final, chamou-me a atenção para o rastro de sangue que meu pé imprimia sem capricho na areia.

Valeu Fagner!

Um comentário:

filete disse...

épico!!