quarta-feira, 16 de maio de 2012

Pé de Cachimbo



Hoje é domingo e, aos domingos, acho, eles não rezam na mesquita vizinha. O gato ta com muita fome, mesmo depois de ter comido todo o polvo que tinha sobrado e não tem luz. Não tem. Aqui tá menos que escuro. Menos. Pois os postes e aqueles faróis da rua buxelam fantasmas nessas paredes mal pintadas da sala e o computador que renderiza um vídeo destinado ao facebook, ofusca meus olhos e cega a casa. Mas ilumina com o seu jeitinho peculiar e o gato percebe isso da sua maneira. Amanhã aquela água na garrafa vai me limpar da poeira acumulada hoje e eu vou encarar o escritório com cara de pau e fotos novas. Fotos de uma felicidade real de domingo, de sábado e de ilusões. Dessas reais mesmo. Das compartilhadas pela internet. O bom é que as ilusões hoje em dia são mais reais, têm uma cara e um livro pra serem descritas, até pelo mais maneta dos semianalfabetos. Hoje algumas fotos, gigas e um monte de lixo compõem ilusões tão bem descritas que não faltam situações reais duvidosas – aquelas sem as máquinas registrando e com muito grito e suor pingando. Esses nadas da vida e da lida, cada vez mais raros, são menos que nunca (nem são) e ninguém é mais capaz de lembrar da semana passada. A noite morna, embalada por gente gritando um português negróide nas ruas é macia e lubrificada com cerveja local. As questões e os tostões já não fazem nem cócegas. Como não vou bater em ninguém, castigo o teclado com esse batuque impreciso. Como nada conecta e a energia escasseia, amanhã de manhã, eu aqui, pequeno terrorista, bocejo e publico este texto que você lê agora – num tipo errado de hoje.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Para Ninguém


Dá Play, daí você lê; esta legenda irá te acompanhar até o fim do quadradinho do vídeo (e além, pelo jeito)




Quando o amor toma conta, ninguém dá conta, é ele que manda. Quando em mim esse amor aponta, nada se faz, ela comanda! Um pouco de amor e cerveja, e de briga, em casa, e a febre da filha, e a água escorrendo, aos baldes, errada, do cano. Início de ano onde nada acontece, onde tudo envelhece: nesse começo de ano que também é aqui. É assim. Tv portuguesa, e indiana, e árabe, e moçambicana e também a inglesa. Nada se vê ou se ouve, esponja, absorvo, trabalho, desenho, computo e viro essa noite burguesa. Bom dia Maputo, bom dia, notícia: Em Beja um senhor esquarteja, ai tuga. Catana. "Família apodrece por uma semana no quarto, no hall e na cama". Oi Lusofonia, não sei o que digo, mais sei que eu falo e quero gritar, mas às frases não bastam exclamações. Tu me entende, Lusa, tem coisa que não é tão gráfica. É que falta uma voz, muita voz, muito timbre, ta aí um que falta. Eu sei o que eu quero, ou queria... Era só desejar um bom dia a todos. Bem, como se isso pudesse mudar esse mundo sombrio. Tá. Também eu queria, assim, que a palavra "sombrio" não soasse uma rima no fim. Rima, era mesmo –isso aí–, o que eu não queria. E pra não falar "não" novamente, eu também gostaria, sem usar tanta vírgula, jamais ter escrito a palavra "burguesa", pois dessa eu só quero o silêncio e as demais regalias.


Porcaria. Até logo!




Você leu?

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Dois mil e menos



Desejo um 2012 repleto de menos coisas. Desejo um mundo menos mágico e menos besta, um mundo com menos papais noéis e apocalipses maias, católicos ou nucleares. Menos historinha, menos poesia, um pouco mais vida, talvez. Esse mundo, que eu teimo em odiar, sempre me surpreende quando se mostra nu. Quando ele, na forma de alguém, vomita sangue do lado de uma lixeira é que eu consigo enxerga-lo por entre as minhas pernas que pulam o sujeito como se fosse um buraco. Se é pra amar tem que amar isso também. Não consigo. Esqueço logo a droga do protetor solar, e dos ovos de páscoa, e digo, e sigo. O mundo fode todo mundo, porque todo mundo é mundo e o que se pode fazer é retribuir com um belo par de ombros, um par de vezes, pra cima e pra baixo. Do outro lado, bem do outro mesmo, mulatos afogam Yemanjás de plástico e pulam ondinhas no mar. Aqui, um resto se desdobra pra simular esperança. O mundo se veste de palhaços brancos macaqueando em cima dum nariz azul gigante. Praças, praias, picadeiros. 10, 9, 8, 7, 6, 5, 4, 3, 2, 1, não sei quantas vezes, bilhões ou milhares de vozes. Mundanos invertem a ordem pra manter a contagem. Haja coragem, haja fé, ninguém reage! O mundo me enjoa e gira à vontade. Qual o ano que vem foi feliz? O ano passado é feliz! O agora é sempre saudade e angústia. Felicidade só existe acompanhada de peru agridoce e bacalhau com batatas, e ninguém almoça isso assim quase nunca. Desejo um feliz ano velho pra todos, e que o pessoal aí que não tem mesmo como evitar vomitar sangue vomite a vontade, mas que vomite menos.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Face ao livro


Data, dado, dedo, digito. Blablablando, narro sem sarro a queixa e o fato: das janelas brancas na tela, os fótons denunciam sem trava. A senha do sítio já foi gravada. A vida de pernas abertas pro livro da cara, entrega, tão brega, o pretexto pro fim. Aflito, reflito e conecto. Comento e me lembro que não vivi nada. Cansado, respiro, cansado de nada. As mãos são quem são, são quem agem. As teclas são nossas pastagens. Paste. Posto passagens. Na teia do mundo selvagem, deleto a minha paisagem. A busca é constante, o filme, a tara. Curto, cultivo e cutuco. É a saudade algorítmica o que pesa e dispara. Ninguém me responde. A máquina trava.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Dança Quebrada




Em Anápolis, Goiás, Brasil e tal tem um parque bem agradável. Foi lá que eu passei esse domingo. Demorou vinte e sete anos pra eu entender o valor dos domingos e da manhãs. Demorou vinte e sete anos e um domingo bem vivido pra eu entender como parques urbanos com goianos e tudo podem ser agradáveis. Demorou. Aí né, eu tava lá num desses campeonatos internacionais de break dance que eu nem sabia direito que existiam, – menos ainda num rincão, tipo Anápolis – eu tava lá. Tinha aqueles caras que faziam aquelas coisas acrobáticas batidas e os que não faziam coisas batidas, mas que eram acrobáticas e legais. Fazia sol e eu curtia o sol e a cerveja. A cerveja era bem proibida porque o mecenas, com a cara pintada de Coringa do Batman, ficava dizendo que era palhaço, que todo mundo era palhaço por uns lances relacionados ao Sistema e a TV Globo e que o Jesus não autorizava cerveja, sendo assim, naquele parque ninguém se atrevia a beber cerveja. Mas ela era vendida do outro lado da rua, tava gelada e boa. O Kibe vendido no mesmo lugar estava gelado e ruim por dentro, mas o domingo era quente e bom. Antes, eu estava em Olhos D'água, tentando juntar um monte de cacos meus que, felizmente, consegui trazer na mala até aqui. Quase todos esses cacos estavam aqui e foram colados, num trabalho artesanal de meses seguidos, com muita super-bounder e amor materno. Mas faltavam uns cacos, uns preciosos que ficaram noutra mala, lá em Maputo... Depois desse Antes, mas antes de Agora, me enfiei em desventuras riquíssimas pelo sertão do Nordeste onde minhas referências e sonhos se transformaram em surtos babacas de auto conhecimento. Quase morri, por conta própria, se quer saber. Ó só que massa, o menino cresceu, tem família e tudo, tem feito algo de bom, se quer saber também. Falar, sentir, amar, amar domingos e uma ou outra manhã. "Que vergonha moço, que vergonha". Que bom também. Tô indo, outra vez, rindo, outra vez também, mas com o coração se enchendo de paz (essa palavra difícil de manter), com os cacos no lugar, com uma boa lembrança de Anápolis e sem me importar se viverei em Maputo, São Paulo, Brasília, Berlim, Recife, Luanda, Tokyo ou João Pessoa. Não importa. Só quero achar esse caco que não deixa minha pleura ser pleura. Eu quero é estar vivo, os domingos, umas manhãs, quero vocês meus amigos, bem mais de 140 caracteres e bem menos facebook. Mas dá mor vergonha falar.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

O homem que chegou à Lua



Enquanto o amor se propaga entre as tempestades teóricas do espírito, do romance e do corpo químico alguma coisa acontece aqui. Sim, ela acontece. Não se tratam dos fatos, dos acasos, das histórias, da dialética. Algo acontece. Enquanto as gentes se jogam nos erros, deleitam-se em acertos, gozam moral, educação, esperança. Enquanto isso, nos momentos em que cavaleiros apontam aos céus suas espadas contra o tédio, o sono, contra a calma. Algo acontece. Enquanto os rios de cada vida seguem seu rumo entre vales, calcário, esgoto e enxurrada. Enquanto se tenta explicar, ou ao menos perceber, algo acontece. Enquanto as distâncias, as lembranças os bits, bytes, megabytes, teras, os etc., se limitam nos sons, nos cliques, nos limites. Enquanto isso (tec, tec) algo acontece. O amor tenta-se a se explicar enquanto isso. A pele se arrepia e se explica. O medo se espanta e se justifica. Enquanto isso, num longe, num lugar perdido das próprias calmas, o amor se finca. De longe, daqui, um esporo cheio de verdade se lança a meio mundo e se enterra no coração de uma criança. É o que percebo. É a verdade agora. É o que acontece.

sábado, 11 de dezembro de 2010

Maputo



Maputo é o É o lugar cujo o maior orgulho aparente – deleitam-se seus cidadãos – é ser terra da sétima (sétima) mais bonita (bonita, bela e tal) estação de trem (comboio) do mundo. Tudo morre, sem sequer nascer ali. Foi lá que descobri o amor verdadeiro. Foi ali que reinventei o ódio. É disso que sou feito agora. Sou feito de dum trato, dum asco, dum momento em que, numa estrada, essa saudade foi forjada. Uma saudade tosca. O palco de meu ódio. Maputo não exige. Maputo não é. Maputo é passado puro e um seco e descontente presente aqui, de tão longe que, afinal, é. Eu já disse o quanto odeio Maputo?


João Pessoa

Tenho trabalhado nisso.




Este post corresponde ao post incompleto referente às cidades






segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Acardio



A parte exterior do sujeito despenca em queda vertiginosa rumo ao núcleo denso e frio. Implodiu. Como uma anã branca, mal podia ser vista no céu, acuado no último lugar de um universo infinito. Buraco negro. Agora nem a luz escapa à sua desastrosa gravidade. Tudo é pura gravidade. Agora não é mais agora, nem antes ou depois, agora nem o tempo faz sentido.

De volta ao plano terrestre, a astróloga não ajuda. Saturno satura Netuno com influência da Lua minguante deixando o dia propício pra ficar calado. Em busca de uma segunda opinião, descobre-se que os búzios não mentem. Não dizem a verdade também. Os búzios não falam.

O coração ainda bate, bate forte, bate bem. O coração espanca. A vida, o espaço, o mundo agora é a lona. É ela a cortejada pelos beijos banguelos do derrotado acardio. Dentro dele, descoraçado, só se ouve o pulso das últimas lágrimas que pingam regularmente dentro de um balde cinza.

É outro dia, ele consulta o horóscopo. Fica sabendo então, pelo mesmo jornal, que um buraco negro ameaça engolir do Sol a Plutão. Sente o tecido do tempo e da lona se distorcerem rumo à singularidade iminente. O firmamento é um espelho dramatizando em reflexo sua insignificância.

Sabendo que está testemunhando o fim de tudo, enquanto Urano se desmaterializa em poeira cósmica, vê seu coração sacana se desprendendo do pódio e um grupo de astrólogos agonizarem rumo ao buraco. Sente a ausência, conhece a paz.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Feliz aniversário, otário!




É que eu já perdi mesmo as contas de quantas vezes fui assaltado...

Voltando da aula de kung-fu, com uns onze anos de idade, ao chegar na L2, vindo da ACM da 608 Sul, em Brasília. Cinco meninos de rua me arrancaram o quimono preto e me deixaram com a humilhante sunga, usada na aula de natação. Foi aí que eu vi o quão inútil aquelas aulas de artes marciais estavam sendo. Foi o primeiro assalto que eu sofri.

Meses depois, voltando da loja de artigos de RPG na Asa Norte, com orgulhoso com o deck completo Magic the Gethering nas mãos e patins nos pés, meninos de rua, encantados com os monstros brilhantes das cartas que eu observava no fundo do Grande Circular, ônibus que circulava todo o Plano Piloto, me arrancaram os baralhos mágicos e correram ferozes e felizes pela comercial da 703 Norte.

Já em São Paulo, pouco depois de ter me mudado pra cidade, andando pela Rebouças, um grupo de trombadinhas armados com dedos atrás dos casacos me arrancaram uns trocados, deixando generosamente o dinheiro do "busão".

Numa padaria do Paraíso, na fila pra pagar, a dupla em minha frente sacou o revólver, limpou o caixa e os três Reais que eu levava pra comprar os pães.

Na Augusta tentaram me roubar a máquina fotográfica que se espatifou no chão e quebrou em mil pedacinhos.

Voltando do trabalho com o mísero salário inteiro no bolso um cara mal encarado me pede um cigarro e logo depois, o dinheiro. Dei sorte, convenci ele de que só tinha cinco reais e foi tudo o que ele levou.

Morando em Perdizes, ao chegar em casa de um passeio vespertino de um lindo sábado de outono, a porta do apartamento havia sido arrobada com um pé de cabra. O apartamento estava agora de pernas pro ar o computador e a máquina fotográfica da amiga que morava comigo haviam sumido.

Na 9 de Julho, um menino me levou um celular. Estava armado.

Na Faria Lima eu consegui convencê-los a não me levarem o celular e estava realmente sem dinheiro, fiquei sem algumas HQs.

Ao encerrar o contrato com uma editora, fiz um saque de oito mil Reais no Bradesco da Rua dos Pinheiros. Um motoqueiro seguiu meu taxi até perto de casa, na época, nos Jardins. Atrás do Carrefour, ele saiu da moto, tampou a placa e me seguiu ordenando que eu entregasse a sacola. Empurrei ele e em um piscar de olho eu havia me teletransportado pro interior do supermercado. Foi por pouco.

Num ponto de ônibus da Berrini, fiquei amigo dos assaltantes que entenderam a importância do anticoncepcional pra minha namorada e não me levaram o dinheiro. Tava ficando bom nisso.

Voltando do Mercado Municipal com a Gi e a Poli, com uma fortuna em queijos variados e uma panela nova pra preparar polenta, perdemos a panela pra dois trombadinhas armados com uma régua. A Gi defendeu heroicamente sua bolsa mostrando que ali só tinha queijo.

Em Gênova, na Itália, roubaram minha carteira. Isso resultou numa perseguição pelas vielas medievais da cidade até um lugar descampado escuro onde um combate patético entre eu e os dois meliantes me deixou sem a carteira e com dois dentes quebrados.

Em Buenos Aires levaram a bolsa da minha ex-namorada enquanto tomávamos uma cerveja numa praceta. Eu fiquei sem minha máquiha fotográfica.

Em Cape Town, na África do Sul toda o know-how adquirido depois de anos sendo assaltado ajudou a espantar os bandidos com um grito intimidador. Estávamos bêbados, claro, eu e Léo, mas valeu a pena. Não nos levaram nada.

Ontem, andando pelo centro de João Pessoa, policiais cheios de boa vontade me colocaram no camburão depois de eu ter pedido uma informação. Estavam sendo simpáticos, resolveram me levar a algum lugar onde eu pudesse me divertir. Claro que pediram uns trocados pro Guaraná que eu cedi sem hesitar. Por algum motivo acharam que a boate GLS da cidade era a minha cara. Eu cheguei na "balada" saindo de uma viatura policial para a surpresa das pessoas que aguardavam na fila do lado de fora. Não podia ser pior. Travestis decadentes me olhavam com nojo. Resolvi voltar pra casa...

...No ponto de ônibus da Lagoa, uma faca no pescoço me avisava que eu tinha que entregar meu celular.

Fica aí a dica pra meu presente de aniversário.



segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Raimundo Fagner


Vista de uma paisagem de Mossoró num dia de inverno: não lembra a superfície do sol?

Uma placa na BR 340 indica que estamos a dez quilômetros de Mossoró, no Rio Grande do Norte. Mero capricho do DETRAN. Quem já ouviu falar na fama daquela cidade calorenta, percebe logo que não se trata de boato e que, diabos, existe uma fronteira entre o universo conhecido e essa bolha seca e flamejante onde algum retardado mental decidiu construir uma cidade a um tempão atrás. Retardado por retardado, eu chegava ao fim de uma viagem desde João Pessoa, de quase 500 km ao sul. O objetivo? Assistir Raimundo Fagner ao vivo, na Capital do Sal, a bela Areia Branca, pertinho de Mossoró!


Algumas semanas atrás um amigo me arrastava de Moçambique pra Paraíba usando como desculpa uma oportunidade de trabalho que surgia pra mim aqui nos confins do Nordeste. É claro que nada é tão simples como parece. Não demorou muito pra verdade vir à tona. À medida em que os dias passavam, ficava claro que Leonardo tinha somente uma coisa em mente quando me chamou até aqui. Leonardo, esse cara legal, de mau-humor cativante, tem uma estranha tara pelo trovador cearense, e não se contenta em perseguir Fagner por todo recôndito miserável por onde propaga suas borbulhas de amor: arrastar comparsas desavisados caatinga adentro, regados a cachaça Rainha parece ser seu passatempo predileto.


A Sombra de Um VulcãoDeixamos as malas em Mossoró, a apenas cinquenta quilômetros de Areia Branca, na casa da simpática Gabão que nos cedeu os sessenta metros quadrados de azulejo de seu lar desmobiliado para que dormíssemos. Ninguém entende o quanto é bom dormir num chão de azulejo até conhecer Mossoró. Fora os frigoríficos da cidade, não existem lugares tão confortáveis quanto os ladrilhos de cerâmica barata. Seguimos pra cidadeziha praiana onde o show patrocinado com dinheiro público celebrava os sei lá quantos anos da cidade de Areia Branca. O dinheiro não tinha culpa, coitado, tava lá disponível. O aniversário da cidade, gaiato, foi se meter lá, às vésperas da eleição... O radialista da cidade escondia-se atrás da bateria da banda de Fagner, pela timidez inerente aos radialistas, pela confusão dessa coisa de aniversário com eleição, anunciando Raimundo, o Fagner, "mas não sem antes darem uma conferida nesse DVD que passa no telão".

Cinco minutos de belezas da cidade, asfaltos remendados, leitos de hospitais, negrinhos sorrindo e bombas de petróleo sugando o chão rachado pela estiagem depois, o astro entrava no palco, levando representantes de todas as gerações sobreviventes à seca nordestina da humanidade ao delírio.

A galera animada durante o show dançou pra valer (foto-montagem)
O show começou. Meninas de shortinhos apertados atarrachavam-se em forrobodó com jovens de mullets sararás. Um camarote VIP à esquerda ostentava toda a camarila da cidade que, sorria pro (do) povo em cima dos tapumes patrocinados pela onipresente prefeitura municipal. Entre nós e o palco, uma paisagem de crianças, jovens e velhinhos que, não fosse pelas diferentes alturas, formariam um altiplano de escalpos – a proximidade da cidade com o estado do Ceará ficava clara pelas fisionomias dessas cabeças.

Cavaleiro da NoiteA banda formada por dois gutarristas, um baterista enfurecido, dois tecladistas, um baixo e o excelente violeiro Fagner começou a me surpreender quando eu me dei conta de uma coisa: aquilo era um show de rock pesado! Um público que jamais acolheria a mais inocente das bandas emo, por medo do capeta ou da maconha, improvisava contorcionismo-forró debaixo de solos de guitarra nervosos, teclados psicodélicos, slaps violentos no contra-baixo e agudos fanhos do crooner que, canção após canção fazia até o mais senil dos espectadores balançar o esqueleto. Raimundo é um roqueiro pesado.

Fagner abandonou uma população bêbada e desgovernada, entregue à própria sorte e aos próprios votos naquela noite que nunca mais terminou. Nós, um grupo formado por mim, Leonardo e outros três programadores de internet com nomes estranhos demais pra eu escrever aqui nos divertimos, nos perdemos, carcomidos pelo forró que só acabou quando a impossível manhã chegou.


Pra Quem Não Tem Amor

Às sete horas, um par de graciosas bugres, maquiadas pelos três litros de cachaça Rainha generosamente entornados por meus companheiros de viagem, nos acompanhou até a praia para um passeio tétrico. Fagner, inconsciente de seus poderes mágicos, cravou conchas venenosas em meu pé enquanto eu, querendo ser um peixe, deflorava o oceano Atlântico com passos decididos em cima dos recifes da praia. Leonardo, motorista, aguardava com uma ressaca tântrica no carro, tentando fazer a cachaça evaporar com a força do pensamento, enquanto seus amigos tinham as vistas desembaçadas pelo sol que rachava aquela manhã no meio.

Salvaram-se todos, eles e as miúdas, que, sem a poderosa maquiagem d'aguardente perdiam suas belas curvas e argumentos sedutores que arrastou todo mundo até a estátua de Yemanjá que apodrecia num canto esquecido do litoral brasileiro.

Num último e solitário passeio, ainda me sobrou tempo pra um papo franco e sem futuro com um potro de olhar triste, que, apesar da minha língua enrolada, ouviu essa história toda com paciência. Num relincho final, chamou-me a atenção para o rastro de sangue que meu pé imprimia sem capricho na areia.

Valeu Fagner!

terça-feira, 29 de junho de 2010

Próximo Capítulo



Cinco ou seis dias, já não me lembro.
É certo que nos dias de hoje os dias são marcados por
posts. Eu não lembro e não vou mesmo checar a hora ou o dia do meu último post.
Estou perdido no tempo.
Revejo agora mesmo ao primeiro filme que assisti do Almodóvar,
Tacones Lejanos. Me lembro da minha ex-ex-ex-namorada (a minha tataranamorada). Ríamos e nos excitávamos com as relações coloridas e esbugalhadas que se desenrolavam na tela, ao passo em que, adolescentes, burros e apaixonados, aprendíamos um pouco mais sobre como as coisas deveriam ser. É por isso que eu sou veado, é por isso que eu sou obcecado por mulheres. É por isso que eu sou heterossexual.
Valeu Almodóvar!
Já se passaram uns 12 anos anos desde que conheci aquela menina... O que une o agora àquele passado é um tipo de ignorância baseada no tédio e na pasmaceira. Eu morava em Brasília, agora moro em Maputo, São duas capitais decadentes do mesmo ex-império medíocre que ensinou português a uma boa parcela de fins-de-mundo. Meu estômago ainda dói também, naquela idade um médico chamou a dor de úlcera, ou úlceras. Duodeno.
Me sinto perdido e preso novamente, como se tivesse dado uma volta num imenso círculo. Está tudo de volta, sou adolescente outra vez, estou novamente diante da mudança. Os 30 se exibem bem ali na minha frente, sem forma.

Sobre o filme, Almodóvar fala de algo que eu gostaria que essa namorada de agora visse, de um monte de coisas que gostava que ela visse. Aí eu lembro que eu tenho medo, que eu gosto da ideia de uma mulher que não assistiu quase nada do Almodóvar – pelo menos não com meus olhos sujando tudo. Lembro que eu tenho medo, lembro que jamais me senti com tanto medo. Lembro que estou seco.

...

Gostava de ter algo pra apelidar de maldição, sina, carma, motivo. Queria mesmo ter algo pra culpar, mas não tenho. Só tem eu aqui, cometendo, comentando, postando.
Ano que vem faz 10 anos que não falo com ele. Aquele progenitor que eu detesto, detesto por ter amado tanto, por me fazer entender o que realmente é errado na vida, na prática. Por tornar as lições, todas elas, tão caras. Detesto por fazer parte de mim, por me fazer errar tanto, por me fazer pensar ao contrário fazer a minha vida parecer um longa-metragem vagabundo que sequer foi filmado.
Gostava alguém me dissesse como fugir daqui, como lidar com as mulheres que eu amo como se não existissem outras, ...tantas. Queria ser burro como ele.
Não vou cair na besteira de culpar os outros. Contando de hoje ao dia em que eu nasci, eu podia bem culpar a minha atual mulher, por ser imatura e estúpida demais pra desfrutar de um ou outro bom momento da vida, por ser portuguesa (isso num nível mais metafísico), ao meu ex-patrão, por ser um português estúpido que se converteu no tipo mais estúpido de moçambicano e destruiu qualquer esperança minha de fazer algo que preste nos últimos meses. Podia culpar Moçambique, por me infectar com genuínos pensamentos, sentimentos e esperanças racistas. Podia culpar Angola, por me desviar do caminho traçado em direção a Berlim e a improvável felicidade ao lado da minha ex-mulher, a Poliana. Eu podia culpar a Poliana, a Juliana, a Camila, a Denise, a outra Camila e a Nicole. Poderia culpar o sistema público de ensino no Brasil. Eu devia culpar a minha mãe, essa que me pariu, me criou e jamais me deixou perceber o que fez de errado... Freud Explica.



Mas eu não vou fazer nada disso. Vou surpreender o público escasso que assiste ao vivo à merda do meu filme, esse público que assiste ao drama, confuso. Vou fazer as pessoas chorarem de alegria e rirem nervosas enquanto aguardam ansiosas pelo final, isso que nunca há de chegar.

Merda!

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Eu?



Eu me acho o máximo.

Essa é praticamente a minha única qualidade.

No meio de tanta merda, tantos deslizes e um bocado de tristeza, eu me lambo, me encanto e me divirto nadando nos mares de merda onde eu costumo praticar meus esportes favoritos.

As coisas correm mal, os planos não se concretizam e o cerco fecha cada vez mais.

E tem algo estúpido em mim, um vírus, uma luzinha irritante no fim de cada túnel.

A luzinha pisca, pisca, me hipnotiza.

Aí eu fico aqui, com a vista ofuscada, me achando o máximo.

É assim que eu me acho.




segunda-feira, 31 de maio de 2010

A Caça e o Caçador


Esse texto é sobre a morte...



O mar é Kalunga
A
morte é Kalunga
A fatalidade é Kalunga,
O trabalho escravo é Kalunga

Olha só, quem falou isso foi um cara chamado Antônio Agostinho Neto, um poeta angolano, lá do Bengo, que por acaso deu nome a uma rua onde eu morei e que, não por acaso, liderou a revolução em Angola, onde eu também morei. Não sou nenhum conhecedor da obra de nenhum poeta, sinceramente, quero mesmo é que os poetas tomem jeito e comecem logo a trabalhar. Mas não deixa de ser irônico o fato de que os angolanos encarem o mar desta maneira. Kalunga, em suma, quer dizer mesmo "mar", ou seja, onde tudo acaba, como qualquer idiota pode concluir, facinho.


Capítulo 1: O mergulho de dentro pra fora

Segunda-feira passada, lá estava eu, num barco, num oceano que eu nem sei qual é, tipo ali na divisa do Índico com o Atlântico, tecendo grunhidos de agonia, seguidos por jatos de vômito que caíam generosos em cima de tubarões brancos exibidos, em algum ponto bem escroto da costa sul-africana.
Passagem comprada, revista fechada, decisão tomada, pé na estrada!
Saíram de Maputo felizes da vida, dois amigos, determinados a ter uma semana desvairada na belíssima Cape Town. Um tipo de Rio de Janeiro africano – numa análise bem porca . O garotão de vinte e seis anos sabia bem a vidinha medíocre que deixava sem remorso pra trás, assim como tinha consciência do glorioso futuro que tilintava como um neon de puteiro da Augusta em cada direção que apontasse seus sonhozinhos delinquentes. Orgulhoso de sua inteligência resistente às mais duras provas, tragos e estragos, gozava de certezas inexplicáveis aos reles desconfiados e inabaláveis diante aos árduos testes de sobriedade impostos por uma ou outra desventura.
A menina completava vinte anos, abandonada lá em Moçambique, pingando em seus próprios is, como se cada i fosse o mais complexo pictograma chinês.
Não era complicado pro rapaz acompanhar essa transição caligráfica que emendava a vida da menina durante as duas semanas que antecederam a viagem e separavam o casal. Tanto que ali, solto nas ruas descoladas da Cidade do Cabo, cada post, cada scrap, cada e-mail, cada SMS digitados pela menina nos dias desesperados de abandono, editavam-se num livro tão bem escrito, que o cérebro tunado do pequeno adulto, tão espanado pelos vícios e pela Marvel Comics pediu arrego. Foi aí que o coração e tomou o timão.

Capítulo 2: Morte é igual ao amor

Foi medo de ver ela morrer, foi medo de ver a filha dela morrer, foi medo de morrer. Foi só isso que me fez voltar e dar algum valor à tudo o que tinhamos e podíamos vir a ter. Foi medo da morte. Medo da morte é um tipo fodão de amor, pelo jeito. Sabe-se lá porque (ou até sabe-se), mas esse medo tomou conta de todo espaço e sufocou o tempo, de maneira que o resto ficou pra depois e só sobraram nós dois, presos ali no quanto antes.

Voltar, casar, blá, blá, blá. Amor eterno é a bola da vez. Novas regras, novos planos, novas lágrimas, novos gozos. Lá vão os dois, de volta.
Assim que o gajo regressou à Maputo, esconderam-se num quarto de hotel de cortinas pesadas onde puderam submeter-se ao plano traçado via Skype, nos dias em que estavam separados pela ponta sul do continente africano.
Depois de três dias e muitos quilômetros rodados pelos corpos em cima da cama do hotel no Bairro da Polana: Swazilândia! A caravana de amigos seguia animada rumo as montanhas do reino swazi, vizinho de Moçambique pra um fim de semana regado a música, gargalhadas e toda a sorte de diversão fácil.
No domingo, carregado de nuvens cinzas e de ressaca, o amigo bate na porta para dar a notícia: "Avisa aí que o pai dela morreu".
Ele não avisou nada, voltou pra cama, deitou com ela, dormiu mais um pouco, tomou o café da manhã com ela. Avisou. Abraçou, chorou e não tirou nunca mais a mão do coração dela.

Capítulo 3: Rui

Enquanto eu almoçava com toda a família e contava a minha experiência estúpida sobre o mergulho frustrado com os tubarões brancos na África do Sul ele replicava orgulhoso: "Nessa região aí que você foi vomitar eu matei uns dois ou três tubarões..."

Aos nove anos de idade ele matou o primeiro búfalo, aos doze o primeiro elefante, aos cinquenta e tal já tinha matado quase todos os animais do planeta terra e teve finalmente a sua primeira filha, a Maria. Dezenove anos depois eu levava Maria e a neta do Rui pra morarem comigo. Estávamos noivos.
Nesta altura o Rui já era um velhinho, do tipo que aparecia lá em casa quase todo dia pra levar lichias e bolos de chocolate pra Luana, minha enteada. Na noite de sábado pra domingo, enquanto saltávamos animados ao som de Freshly Ground num festival de música pop africana da Swazilândia, meu sogro, o caçador mais famoso de Moçambique, vovô babão da minha filha postiça, portador orgulhoso de um dente de mamba-negra em uma de suas canelas, exterminador implacável de crocodilos-gigantes, andarilho incansável das savanas do continente negro, dos desertos mongóis, do pantanal mato grosensse, o matador de elefantes, o taxidermista de leões, tigres e urubus, sucumbiu, com teu velho coração de passarinho, ao cansaço e ao tempo, sentado na poltrona de sua casa, assistindo TV. Morreu dormindo.
Acordamos cedo hoje. Fomos vestir o Rui pro seu enterro. Acabou.

Capítulo 4: Viver


Às três horas da madrugada ele deveria estar dormindo ao lado dela, ainda mais depois de um dia como esse. Mas precisava escrever. A experiência no necrotério, com tanta gente morta jogada nos cantos, como lixo. O cheiro, o choro, o choro dela...
Mas não foi nada, fez tudo pelo teu sogro, com quem não tinha lá muita ligação, mas de quem, no entanto havia ganho, assim de mão beijada, as duas coisas mais importantes que ele ganhara na vida: o amor da mulher e da filha.
Ele tomou uma decisão, as coisas iam mudar pra valer dali pra frente. A vida chegou mesmo pra ficar.


sexta-feira, 16 de abril de 2010

Maputologia: Diálogos soltos, por ordem cronológica



Paquera
11:30h da manhã.

Vendedores de gás, negros, adultos:
— Ei, miúdas, venham cá no papá!

Estudantes negras, uns nove anos:
— Sai pra lá, seus, seus... ESCUROS!

Casamento
16:15h da tarde.

Grupo de monhés (como são chamados descendentes árabes e indianos em Moçambique) na pastelaria:
— Uma prima minha casou-se com um negro, mas era muçulmano...

Árabe mais velho:
— Não basta, primeiro raça, depois casta!

Sexo
23:27h da noite.

Homem caminhando, bêbado:
— Estás perdida?

Mulher gorda, encostada num beco.
— Ainda não...

Divórcio
4:25h da madrugada.

Mulher grita dentro carro, na porta da delegacia do Hospital Central.
— Pára, assim machucas-me!

Homem, puxando a mulher pra fora para entregá-la à polícia:
— E pensas que não machucas-me ao trair-me?


***

Tô processando ainda...


segunda-feira, 29 de março de 2010

Sobre Política



Eu nunca votei em ninguém.

Durante as eleições de 2008 eu bem que tentei, saquei meu título de eleitor novinho em folha (tirado um ano antes, simplesmente por ser exigência para a emissão do passaporte) e corri pra minha zona eleitoral, na remota Moema, Zona Sul de São Paulo. Estava finalmente decidido: votaria naquela menina das bicicletas que eu já conhecia da TV e que, durante o pouco tempo que aparecia no horário eleitoral, era quem quebrava o espetáculo de comédia protagonizado por tantos senhores de nomes excêntricos e propostas repetitivamente vazias, como jargões.
Acontece que a escola pública indicada pelo site do TRE para o meu título de eleitor era na verdade em outro endereço, no Brooklin pra ser mais exato. Faltando quinze minutos para as cinco da tarde, eu já não tinha chance alguma de votar em ninguém. Tempo esgotado pra eu exercer o meu recém nascido e tão parco senso cívico. Acometido por uma inédita vontade de tomar sorvete, outra decepção: esqueci meu dinheiro em casa.
Voltei andando os dez quilômetros que me separavam da Rua Mourato Coelho exclamando baixinho pra mim onde foi que eu errei. Estava bem claro.

Cruzeiro, Cruzado, sei lá...
Quando eu tinha uns sete anos apredi o significado de uma palavra que sempre me soou como nome de banda post-puk inglesa: Impeachment. Um presidente muito jovem que andava de jetski pelo Lago Paranoá havia sido deposto de seu cargo. Eu sabia alguma coisa sobre as barbaridades que o sujeito fez pra ser tão odiado. Ainda lembro que, de um dia pro outro, um chiclete Bubbaloo podia dobrar de preço. Só não lembro direito em que moeda...
Lembro de estar à beira de algumas ruas da cidade gritando "Lulalá" pra cá e "Foracollor" pra lá, mesmo antes dele entrar. Esses conceitos simples são fáceis nessa idade. Bem e Mau, Deus e Diabo, Lula e Collor, etc. Depois muda tudo, né?
Enquanto, no seio da família, agonizávamos em frustação quase futebolística pela derrota do Candidato-Bem-Deus-Lula, os corretíssimos avós maternos de direita gozavam da vitória moral/eleitoral sobre o nosso degradante ramo familiar, corrompido pela maconha e senso de justiça social.
Só que, depois do problema do Bubbaloo lá tava eu, no trêmulo colo da minha avó que assistia inconsolável pela TV o final da novela onde o mocinho dela perdia. "Olha o que fizeram com o menino!". O nome da novela era Impeachment.



Depois tudo virou de pernas pro ar. A economia do país começou a funcionar por causa de outro protagonista, numa continuação sem sal da novela, as pessoas compraram micro-ondas e foram passar férias em Miami. O campeonato eleitoral já virava tradição nacional, separando e unindo massas a cada quadriênio, sempre depois da Copa do mundo, claro.
Quando chegou a idade de eu votar, me vi cercado de contra-argumentos tão pobres quanto genuínos: "como eu posso ser 'obrigado' a exercer 'democracia'?", "se não tem ninguém bom lá eu não votarei em ninguém" e por aí vai.
É bobagem grossa, eu sei, mas eu tive meu tempo pra deduzir isso sozinho, burlando folgado o eficiente sistema eleitoral brasileiro.
Fiquei sabendo que a coisa ficava bem feia pra quem deixasse de votar. Podia ser forçado a trabalhar como mesário nas eleições e, em caso de não comparecimento, preso! Não que isso me preocupasse, mas descobri algo bem conveniente também — anota aí molecada — se eu não tirasse nunca o título eu jamais seria chamado, por mais que, na hora em que precisasse fazê-lo atrasado, tivesse que pagar uma multa. O bom é que a economia vai bem, obrigado, e a multa de menos de R$ 3,00 não faz cócegas nem ao mais miserável pedinte, acho eu.
Eu precisei tirar o título quando resolvi me mandar pra Europa. Precisava do passaporte. Foi bem simples.

Panfletagem e apatia

Mas eu não tenho ojeriza por política. Muito pelo contrário, se não ligo é porque não faço muito por onde, votando, por exemplo, não me dou ao direito. Mas eu adoro os horários políticos, mais que ninguém talvez.
Durante este ano eleitoral, longe do Brasil, assistirei tudo o que puder, pelo youtube. Amo a performance desses caras no vídeo e acho que sem os Horários Eleitorais, a Praça é Nossa, o Fala Que Eu Te Escuto e o Zorra Total a televisão brasileira não seria o que é, verdade seja dita. Só que eu não votaria no Chico Anísio ou no Carlos Alberto Nóbrega também.

Horário eleitoral gratuito, youtube e pastelões televisivos à parte, eu tenho outra vez um candidato nessas eleições. Na verdade outra candidata. Sou um privilegiado burguês que se valeu da máquina do estado nos últimos dez anos recebendo terabytes de informativos sobre reservas indígenas, ecologia e desenvolvimento sustentável. Filho de uma de suas acessoras, fui um favorecido pelo gabinete da senadora e ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva, com tantos e-mails acerca de seu trabalho que eu jamais precisarei vê-la na TV. E, como não sou nenhum militante, vou simplesmente comparecer à embaixada brasileira da África do Sul nessas eleições pra finalmente votar em alguém que eu acredito ser a melhor alternativa pro futuro de meu país (aí é que entra aquela musiquinha chata: "viver, e não ter a vergonha de ser feliiiiiiiiz...").

Ficarei aqui, numa boa, vivenciando a irritante Copa do Mundo, que eu verei de perto sem Galvão Bueno e aquele verde-amarelo cafona que borra o Brasil todo nessa época. Estarei contente, com a candidata lanterninha desse meu novo time, o PV. Deus sabe o quanto é difícil pra mim assumir uma coisa dessas.
Também sei que a Marina vai perder feio essas eleições, mas eu não vou ter feito a merda de votar em quem sei que não presta (só pro outro que presta menos não ganhar), nem serei bobo o suficiente pra deixar de opinar.

Não dessa vez.

terça-feira, 16 de março de 2010

(Eu Acho)



Um pessoal bem inconsequente resolveu me convidar pra ser colunista. Como se não bastasse... Acompanhem a coluna EU ACHO

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Muito Além do Cidadão Kane




Na casa do asqueroso Rafinha, nós nos juntamos, ansiosos pra assistir aquela raríssima cópia do documentário censurado no Brasil. Não havia nenhum estudante ali, tampouco estávamos vivendo sob ditadura alguma. Devia ser 1997 e a turma dos punks ligava mais um elo da corrente que distribuía lentamente as cópias do filme pelas cidades do país afora. A que estava em nossa mão, se não me engano, vinha de Goiânia, e, se bem me lembro, seguiu para o Rio de Janeiro, via Sedex, logo depois de assistirmos. O Rafinha morava num luxuoso apartamento na SQS 307, em Brasília, seu pai era médico, eu acho. O ambiente requintado do apê destoava absurdamente da montanha de garotos sujos, vestidos com trapos hermeticamente desengonçados. O vídeo seguia embasbacando a gente, à medida em que nossas certezas menos nítidas em relação à Rede Globo escancaravam-se no filme, naquela mesma tela, tão saturada de novelas e noticiários duvidosos. Será que esses ingleses estavam certos? Bem, parece que o vídeo continua censurado lá no Brasil, mas contravenção ainda está na moda. Deus salve a Internet!










sábado, 13 de fevereiro de 2010

Laurentina Premium: pra você ficar de boa com tua raça, pára-choque de consiência, pra neguinho ficar de boa



Sabe que eu tive sorte de ter sido criada a cerveja Laurentina Premium bem nos primeiros meses em que cheguei aqui? Um ano depois eu posso dizer que sou um intoxicado-premium, ou algo assim. Pra neguinho como eu, que pauta os dias pela quantidade de cerveja que bebe (de uma a vinte, no máximo), isso faz sim algum sentido. Sou neto dum cara que bebe, ou bebia, não sei ao certo, muita cerveja. Ele, até onde sei, é descendente direto de holandeses com índios baianos, gente do sertão. Esse tipo de encontro, de europeu com birita, com índio, como se sabe, gera índios cachaceiros. Isso tudo num contexto mais antropológico, claro. A procriação baseada nesse tipo de união talvez não de muito mais sorte. Daí, mistura com português, preto e mais não-sei-o-quê, já viu: se não suja na entrada, suja na saída. E isso de ser disso ou daquilo, daqui ou dali, dessa ou doutra raça, aqui faz muito sentido. É, aqui, nesses países africanos por onde tenho desperdiçado meus sonhos e projetado meus almejos mais agudos. Faz sentido de um jeito que a nossa educação politicamente atormentada no Brasil não é capaz de traduzir direito. O caso é que agora eu não me sinto mais um pardo amarelado do meio da suruba étnica da nossa terra, um brasileiro qualquer, não faz sentido. Eu preciso saber e parecer que sou mulato. Preciso saber pra saber de onde vem a pedra apontada pra cabeça, pra estar preparado a responder como mulato. No final das contas, fico aqui me remoendo nas cotas genéticas da minha pele desfocada. Tem aquele tipo de gente que fala muito de energia. "Energia ruim", "energia boa", "puta vibe!", essas coisas de energia. Tem aquele tipo de gente branca que faz dread-looks nos cabelos pra mostar que afinal é branco só na aparência, mudando a aparência pra ficar um branco mais preto. Tem preto que tem um tipo específico de consciência, a tal "consistência negra" que a gente (que nasce no Brasil) gosta de ter. Mas eu não tenho consciência negra, não. Minha consciência é crespa, tal como denunciam meus cabelos, esses sim, pretos. E minha consciência tá lá, sempre amortecida por cerveja. Por isso mesmo que eu acho bom estar aqui. Fora as espetaculares desgraças e maltrapilhas conquistas pessoais, no fim Maputo pulsa mediocridade, salvo, no entanto, por sua versão premium da tradicional cerveja Laurentina. É mesmo boa.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Aos amigos do futuro



Olha que não foi assim tão difícil. Quer dizer, pareceu difícil, mas olha só, tá aqui, normal. Normal mesmo. As ruas, as dúvidas, as pessoas. Avenida Mao Tsé Tung, Pastelaria Cristal, Shopping Maputo, Mercado do Peixe, batelão pra Matola, Xai-Xai (Xai-Xai!)... Tá fácil mesmo agora isso, pra mim, que não quero entender muita coisa. E o monte de novos e verdadeiros amigos. E essa droga que é fazer amigos, o que faz com isso depois? Dá medo mesmo, não seguir em frente, não é ter saudade, não é se sentir só. Dá medo se acostumar outra vez, se deparar com cheiros, jeitos, sentimentos, surpresas, pessoas. Medo e preguiça são sentimentos bem parecidos se você quer mesmo saber. Achar tudo normal outra vez e tentar submeter um coração tão pequeno como o meu a mais amigos, esses, fáceis, dos bons. Pra isso a vida inventou os chutes, os tapas na cara e tantas línguas diferentes fazendo sempre as ofensas parecerem novas. Você chega lá, ou sai dali, todo fodido, todo roto daquilo, crente que o coração tá vago, só porque teu ódio é fresco. Você fica lá e vê que as ruas tão sempre paradas no mesmo canto, incomodando pelo trânsito ou pelo tédio. Você vê que é simples, se vê simples e segue. Você simplesmente segue. Soa meio ridículo pra uns e outros quando falo de amigos. Falo mais dos mais próximos, uns dezenove. Soa muito ridículo estar tão dividido em tantos lugares. É completamente horripilante pensar nos que vem pela frente, dos lugares, os amigos. Sabe quando aquela tia vem com metade da família pra se hospedar na tua casa pras as férias de verão? Pois é, nem eu, mas acho que deve ser parecido. Onde é que essa gente vai se acomodar? Um novo desafio está aí, todo exibido, bem na minha frente. Se pudesse eu trocava um rim por um coração extra...

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Sopa de Letrinhas



Batata, cenoura, vagem, grão-de-bico, cebola, alho, gergelim, pimenta-jamaica, 0, 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, A, B, C, D, E, F, G, H, I, J, K, L, N, O, P, Q, R, S, T, U, V, W, X, Y, Z e sal a gosto.


Acontece que a sopinha, feita com tanto amor, tinha aquele gostinho tosco e singelo de comida caseira. Toda reconfortante, a sopa foi preparada com carinho e amor, com o critério de quem quer bem e quer ver crescer. Carinho de vó, de tia, de mãe, de cozinheira velha. Requentada com leite, rançosa e infantil, o cheiro, o gosto e aspecto programados pra grudar na memória pra sempre, levando consigo uma informação complexa: "amo-te".

O esquisito disso tudo é que no fim de tudo quem comeu a sopa fui eu. Eu, que no começo fiz a sopa para a bebê. O bizarro foi despejar todo esse amor e carinho numa panelinha, requentar e engolir tudo isso de volta. Curioso foi me sentir amado por uma figura abstrata, aquele Eu que ontem fez a sopa... Na sopa de letrinhas tinha tudo lá, pra quem comesse. Sem desperdício, os ingredientes provenientes de mim permaneceram ali, intactos, e voltaram todos, quentinhos.


Não sei se me faço entender. Foi como um vampiro sugando o próprio sangue ou um tupinambá comendo a própria perna.


Aí que, acalentado, seguro, lembrei de umas coisas. Lembrei que tenho que ir mais longe, lembrei que quero mais, lembrei que posso e que devo ir bem mais além... Lembrei que eu tô indo.


Vamo lá.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Hora do fecho





Dói menos não saber, não ler, não crer. Dói menos não fazer, levar, dói menos parar. Dói menos esquecer, deixar, ceder. Dói menos fechar. Agora, né, tudo aqui, sendo. Os pássaros – péssimos – oram, horas antes daí, Brasil, por culpa do Sol, sempre enérgico, ao menos aqui, explícito, vulgar, esquentando e acordando esses bixos, me dando sono e uma raiva celsia. Parar um pouco e lembrar de escrever: Hoje, sério, esqueci do "b", do bê minúsculo cursivo, com a mão. Como faz? Da bic no branco não saía nada, nem mesmo aos tapas que dei, delicados e rancorosos, na testa. O bê não saiu e eu tive que fazer uma busca por imagens de bês cursivos. Foi desse jeito que eu re-aprendi a escrever um bê essa noite. Isso hoje. Doeu. Doeu como o quê. Hoje, ou ontem, ok, aprendi que estou mais errado que antes, pois sei mais sobre antes. Hoje entendi um pouco mais desse amor, dessa praga que me preenche pulmões mais que o ar, que me ajuda no grito mais que o ar, que me faz gozar mais que a porra. Porra, não morra amor, não escorra. Aí vem mais o que fazer. Esse futuro, tão teu menino, não existe, nem daqui a pouco nem nunca, é agora! Corre! Corre pro agora! Precisava escrever um bê com o mouse, carecia mesmo. A palavra "brand" não faz sentido sem bê. A palavra "brand" sem bê é dinheiro na África do Sul, tá, mas em Moçambique é erro e no layout das marcas né nada. Daí, o quê fazer, grafite, filme, michê? Doismiledez tá chegando, vê, dói saber. A vida continua, panacas, perdidos, sou bem pior que vocês. Vamos lá, mas um ano, mas um BBB, mais karaokê na Liberdade, mais nãoseioquê, queria mandar todo mundo se... queria mandar todo mundo se arrumar pro fim do ano, mas não cair no clicê do branco outra vez.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Trutas e quebradas


Jardim Vaz de Lima, Três Estrelas, Imbé, Paranapanema, Parque, Jardim Lídia, Bela Vista. E aê Lô, Dão, Silvão, Luis, Jacaré, Edston, Jura, Ivan, Kiko, Rodrigo, Família Pessoa mó respeito. Família Jesus, família Andrade, Joãozinho, Rogério, Rodne, Kiko, Ed, Seu Veleci brilha no céu. Cássio, Bola, Perninha, Jarrão, Celsa ta ae diz ae bandido, Chácara, Casa Verde, São Bento, Independência, Grajaú, Vila São José, Morro São Bento de Santos e ae toda a rapa. Juninho, Dinho, Rafa, Mala, Vitor, Roberto, Marquinho, Davi, Meire essas são as pessoas que tricô nas horas dificéis, certo? Valdir, Sandra, Bebe e Fátima, Time Tranbicagem, Diego, Pachá, Larrói, Wilian, Cora, Paulinho, Bicudo e Tico e Catraca, Fernando, Lobão, Paulinho, Mateus só os fortes sobrevivem, Tia Vilma, Tia Maria e Tio Celso. Não sei de nada, não salvo e amo quem me ama, desprezo o zé polvinho e amo a minha quebrada. Obrigado Deus por eu poder caminhar de cabeça erguida. Ae Jaçanã, Serra Pelada, Jardim Ebron de fé, Firmeza Valcinho. E ae 9 de julho, é nós! Wellington, Pulguento, tá valendo, Calibre do gueto, Raciocínio das ruas, Relatos da invasão... é a caminhada certa. Serrano, resistente, firmão. Ei, Valdiza sem palavras hein. Jairão tá no coração, irmãozão! Garotos de periferia sacode a rede que vocês são o amanhã, certo? Vila Mazzei forte abraço Jó, Marcelo boy, Jardim Tremembé te espera, Cachoeira, ei Dédo muita fé hein, Voz Ativa, Pasto, Nova Galvão, Resgate Negro, Jalwa última chance, Vila Zilda, Piquiri, Richard, Nino, Madá daquele jeito, Fontales, Lakers, Zé Hamilton, Luis Barba, Vila Sapo valeu! Claudinei, Sidnei, Mário Jardim Perí, Branco da Rocha, Anderson de Itu, Jackson esqueleto de Porto Alegre muita treta, Cristiano, Santista, bairro do Limão, Dona Dóris e Seu Ourides cuidando da molecada. Itaquera, Cidade Tiradentes, São Miguel, Sâo Mateus, Mauá, Santo André. E ae Edson, pq não? Zona Sul... e ae Zona Sul! Zona Oeste firmão! Cumbi, Carujá, Cocaia, Natanael movimento de rua, Miltão Costa Norte, Edmilson, Albertão de Guarulhos, Cidão de São Miguel, 509-E e todos aqueles que fortalecem o hip-hop aí, firmezão é nós! Ae Diadema, Gildão, Alexandre, Toda rapa do clube do rap valeu mermo, hein? Alô alô Zona Leste, Itaquera, Codorna, Xis, Treze, Duda, Eltão, Fabinho, Tupac da Coab, pô esqueci dos demais, mas aí desculpa aí, tá no coração hein. E aí Tucuruví, Zona Norte, Jó, Adí, Baiano, Dodô, Miliano hein, Claudinei, Sidnei, Zé, Cebola, Panão, E aí Fubá, achou que eu não ia lembrar truta? Cê tá ligado né? E ai Lauzane saudades dos que se foram e dos que ficaram muito respeito, hein. À toda Zona Oeste páá! Alô alô nani, firmeza total. Zona Sul sem palavras, muito obrigado pelo respeito hein. Mas aí, bora ir então? firmão! Alô alô Coyote, Décio, Jeferson, Ébano, Núbio, James, Rappin Wood, Johnny Mc, Camal, Max PO, JL, Paulo Brown, Meire, Micheli, Levir, Fátima, Tatiane, Cebola, Sabotage, Sombra vivo aí À Jesus Cristo que não me abandona. Vila Fundão Caio, Japonês, Corró, Binho, Keu, Carlito, Du, Ronaldo, Vagner, Chibimba, Cacá Palmeirense, Gatula, Paraibinha, Jardel, FF, Davi, Sóssa, Fubá, Valtinho, Vandão, Paulo Magrão, Rua Aglicio em peso, Ceblola, Gordo. Aí rapa, aí negredo, Natal, Nelsinho, Lecão, toda rapa da sabinha. Charles, Richard, Neno, Gordinho, Alan e os irmão cara de pau. Toda rapa que cola na barraca do Saldanha. A rapa do Rosana, Valquiria. Paz para o Jardim Irene, Rosas, Macedônia, Maria Sampaio aí primo Edson, Cesinha, Ratinho, a rapa do engenho, Jerivá, Aurélio, Sora, Cone, firmão Coab, Paí, Parque Fernanda, Comercial, Benê, Jota, Araponga, Wiliam, firmão Pirajuçara, família Santa Rita, Di, Ivan, Selé, Alex, Boi, Jó, Márcio, Marcílio, Mimi, Gege, Daniel, Miltinho, Paulinho ae Santo Eduardo. Firmão tuá, firmão Ricardo, Nirron esteja em paz! Campinho, Beira Rio, Vietnam, Rua Alba, Souza Dantas. Aí Jardim Evana, Santa Ifigênia, Ipê, Novo Oriente, Regina, Jardim Ingá, Maria Virgínia, Morro da Puma, Favela da Coca-cola, Morro Dunga, Morro da Macumba, São Vitor, Pedreira eterna morada Jardim Santa Teresinha, Jardim Apurá lugar lindo hein! Família Camorra, Charuto, Dinho Lê, Família Sem Querer, Família da Joaniza, Testa, Fábio Gordo, Sete Vida. Aí Josias, aí Scooby Doo, Serginho, firmão Edinho. Zé Roberto, Tico, Rock, Marquinho, Neto, Leci, Guineto. Deus abençoe a todos, obrigado pela companhia.

...

Aí Pedro, Julio, Ângelo, Eduardo, Gisele, Mistu, Miki, Miwa, Freddie, mana Flora, Miguel Young, treeeta, hein? Os truta que cola lá na Mourato Coelho, os mano da Augusta, do D-edge, do Mestiço, das galeria de arte.
Poli, mil fita,hein mina? Aí família Trip, mili ano! Família Abril, Família Folha, Pliger, Asta, Jana. Alphaville, Brooklin, Fotosite, Pix, Cia de Foto, Bob, Pisco, Bia, Soubhia. A todos os gays que representam o movimento, Caio, Mário Mendes, Requena, Maurício. Alô Sumaré, alô Eva, Aninha, Ian, Belleza, Jarbas. Um salve aí pra Pompéia, Ana, Bruno, Marcelo. Aí turma de Higienópolis, família Schochat, Dedé, João Fellet. A turma do trampo milionário em Angola, Mayra, Ju, X, Prado. Um salve aí pro Cássio Brandão da ZN, tá valeno. Deus abençoe a galera dos Jardins, Letícia, Rapha. Suave. Só, aí, não lembrei de todo mundo, mas São Paulo tem 16.000.000 de habitantes. É NOIZ!



Querido diário



Ontem encontrei-me com meu
arqui-inimigo virtual. Comemos carne de avestruz e fizemos algo que ja devia ter acontecido muito antes: nos conhecemos melhor. Só espero que não nos entendamos bem demais, isso daria fim a muitas polêmicas ainda por vir.

Mas aqui estou eu, outra vez, escrevendo sobre coisas que aconteceram, que fazem sentido... Vou parar com isso agora mesmopandf aidsboibnfipvdnsopConheça os melhores hotéis da sede dos jogos de 2016!imaosdv ikdf v kmsdcamskcmaonvianvioanv!

Pronto

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Para o desinteresse geral



Tem coisas que eu simplesmente amo nos japoneses.

Hoje comemoro o meu aniversário, atrasado alguns dias, sentado na mesa de um bar, enquanto alguns amigos em casa preparam uma festa-surpresa que eu inventei pra mim.

Na mesa ao lado, dois amigos japoneses, incrivelmente descontextualizados, soltos numa cidade africana, conversam num tom que, pra mim, chega a soar familiar. Ao lado deles, um raro exemplar de pai de família de classe média moçambicano desfruta, juntamente com suas duas filhas mais velhas, alguns coctails bem coloridos. A caçula, de uns nove anos, dança ao som de Like A Virgin melhor que a própria Madonna, mesmo sentada numa cadeira, comendo pudim de natas.

Um Hummer amarelo, com direção do lado esquerdo, aterrissa logo em frente da entrada. Dois gajos de óculos Gucci escuros, ignorando o fato de estar de noite, saem do veículo e entram no estabelecimento apenas para chamar sua malta, que sai sem pagar a conta – Angolanos.

A menina, os angolanos e as acácias plantadas ao redor, resumem o que se pode chamar de africano no cenário. O bar com nome italiano na avenida Julyus Nyerere de Maputo exibe uma decoração plástica, iluminada, moderna e um bocado brega, tal qual um bar dentro de um shopping center em qualquer lugar.

Os tais japoneses da mesa ao lado, por fim, fumam compulsivamente cigarros dum maço de insosso Dunhill branco, bebem paints de cerveja Laurentina Preta alternando despreocupadamente colheradas de gelatina tutti-frutti.

Amo japoneses.

...

p.s.: Saudades de Miki, Mitsu, Miwa, Débola, Angelo, Jana, Reca, Telma, Beto, Luciana e dos outros amigos japas espalhados por São Paulo.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Sobre Amar Eternamente


Incrível viagem no tempo pro lugar bizarro que foi essa infância. Presente de aniversário editado pelo meu irmãozinho Caetano. Amo vocês meus irmãos.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Os ıs sem pingo e os ïs com dois ou mais pingos


"Gravando — O ar parou. O frio no peito se foi, todo calmo. Aí, o mundo estabilizou na temperatura correta. Tô pronto pra mais pancadaria agora. Provavelmente, agora que eu tô ficando bem, eu vá parar de escrever. Provavelmente pare de desenhar e contar boas piadas também. Acho é aquela fase chata de pôr pingos nos ıs. É bom respirar, mesmo triste, é bom respirar e saber de onde vem a tristeza, poder olhar pra ela e ver ela ali, agonizando. O agora fica aqui, como uma fita k7, passando e tocando música sem mostrar nada no display. É bom perceber algumas melodias desse agora, são lentas, novas e até belas. É bom. Eu comprei uma máquina fotográfica toda bonita, eu tenho um cão, eu tenho uma bicicleta e um tênis colorido. Eu tenho muito mais. — Fim da gravação."

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Infinito Ganha De Todos



...E agora eu preciso viajar. A mala já está pronta, o mundo parece mais manso e aquelas unhas enormes que as coisas tem já não doem tanto quando arranham. Depois de dobrar tudo em pequenos rolos e enfiar na minha cabeça, sentei em cima e dei uns pulinhos até conseguir prender a presilha.
Muito bem! — grita alguma parte inofensiva do sujeito — Vai catando essa papelada aí, e essa sujeirinha aí também, queima o que sobrar, escaneia tudo e depois taca fogo no scanner também! Você deve deixar tudo como quando lhe foi entregue. Está no contrato... Isso mesmo, assina o contrato.

Olha, Depois que essas coisas começam a acontecer não resta muito do sujeito, não.


Outro dia, né, eu fui novamente até aquele cubículo para fumantes do prédio. É o tipo de lugar onde, além de um pouquinho da sua saúde, o cigarro acaba te tirando aquela pontinha de dignidade que o trabalho parece oferecer, e o charme pigarrento prometido nos filmes. Só mais um com os dentes amarelos. Você se lembra toda vez que entra lá que jamais terá os culhões necessários pra fumar no meio da redação e cuspir a fumaça na cara de quem vier reclamar. Lembra-se, subretudo, que qualquer coisa nesse sentido seria algo bem idiota de se fazer. E, fora aquele povo detestável, digo, todos aqueles do marketing mais todo o resto quando estão nas salas de reunião, você, enquanto fuma, é a pessoa mais próxima no prédio do que um dia foi um rio chamado Pinheiros. Você fede, e está de frente para a coisa mais fedida que se pode conceber. Não sei se existe uma medida pra isso. Se não existe deveria existir, e de fato, é óbvio que existe, mas eu realmente não sei do que se trata. Tipo assim, decibéis de cheiro, de fedor e tal. É que, na verdade, aquilo é uma monte de fedor escorrendo e usando um rio como desculpa pra isso. Foi lá que eu vi um avião enorme caindo, isso enquanto a porta do fumódromo se fechava e eu instintivamente me preparava para alertar a todos sobre o desastre. Isso durou milésimos de segundo, mas aconteceu, na minha cabeça, é claro, depois passou.


Imagine-se todo fatiado, junto da mulher que você ama, e ela também está toda fatiada. mais ou menos como postas de salmão, ou pepino picontado numa salada ornamental. E vocês tão mortos, acabou, já era! Daí vem o Nick Fury e te veste numa roupa de mergulhador de forma que você fica coeso de novo, inclusive, vivo de novo. E a sensação das fatias do seu tronco escorregando umas nas outras é bem agradável na verdade. Pois eu ainda estou tentando interpretar esse sonho...

A novidade de Brasília, dessa vez veio de um amigo que mora com minha irmã. A Rai, que é empregada doméstica da casa tinha motivos de sobra pra se chatear naquele dia. Acontece que a mulher dela passou muito mal, sua vagina sagrava às bicas enquanto Rai desesperada a levava pro Hospital de Base. Talvez naquele momento Rai se concentrasse em, de alguma forma, diagnosticar o problema. "Deus é que costuma fazer essas coisas estranhas..." pensara Raimunda, "...mas pode ser outro tipo de doença mesmo". Num ôniubs lotado, os pés dos passageiros se melecavam com o viscoso gel sangrento que brotava por entre as pernas de sua amada, misturado com toda aquela lama dos sapatos em dias chuvosos e o gorfo ultrajante dos bêbados que voltaram do bar no primeiro turno. As janelas, que fechadas protegiam todos do temporal, deixava tudo consideravelmente mais difícil de lidar. Uma hora ou duas depois elas já estavam no ambulatório onde foi diagnosticado o problema: Uma criança. Ah, isso deixou Rai meio P da vida. É evidente que ela jamais depositara material genético adequado para fazer uma criança florescer do ventre de sua mulher – mas até que era bonitinho. E o menino foi batizado: Felipe. Eu é que não poderia sonhar com alguma coisa assim. Imagine só, Antônia, a que pariu, não tinha a menor idéia que estava grávida até então. Parece que tudo tem um pouco a ver com os mais de cem quilos de banha que ela carregava em seu próprio organismo a mais de quinze anos. Não sei direito. Elas ainda não resolveram a questão do óbvio adultério. Não importa. Enfim, nada disso alterou em de fato a minha realidade, mas mexeu um pouco na forma de entender as coisas. Não sei direito como ainda.

Isso foi um sonho, depois uma lembrança, depois uma coisa que eu ensinei pra alguém tão ingênuo quanto eu, depois foi um sonho e agora é só uma lembrança. É simples assim: papai e mamãe caminham em direção à luz, a sementinha sai do papai, entra na mamãe. Isso, num lugar cinza, quase preto com uma luz quase amarela no fundo. Papai e mamãe não passam de uma silhueta mal desenhada, e a sementinha, não por acaso, tal como uma bola-de-gude daquelas que podem simplesmente sair voando de debaixo das pernas do papai para a da mamãe faz exatamente isso que ela é capaz de fazer. Sai voando de um pra outro enquanto os dois prosseguem com as mãos dadas. Depois se enterra a mamãe por nove meses, ao lado do supermercado popular da 413 Sul, num caixão especial e tosco com espaço pra dois corpos. Não se esqueça de escolher um cadáver bonito pra colocar ao lado da mamãe, de preferência de algum avô ou bisavô dispensável, e dá um pouquinho de maconha pra mamãe relaxar. Nove meses depois, peça autorização pro gerente do supermercado, viole a cova e retire a mamãe e o bebê que estará bem desconfortável por entre os ossos duros do ente querido escolhido. Limpe o bebê, dê-lhe um tapinha no bubum. É assim que os bebês nascem, seu bobo.

"Escolha a realidade adequada, se esforce um pouco menos que costuma fazer para vencer a prisão de ventre, e depois pare de ponderar, vai ser tarde demais" Teria dito um velhinho da montanha caso não tivesse morrido de fome, frio e asfixia e depois ser devorado por abutres. No mundo ocidental poderíamos interpretar isso como "Eu poderia estar matando, roubando, mas estou aqui, pedindo esmolas como um tolo pobre e sujo". É o que sempre dizem esses mendigos antes de morrerem de fome, frio ou bala perdida e depois serem devorados por tablóides pouco menores que abutres. Eu poderia estar limpando seu carro, te servindo piizzas ou passando panfletos, mas estou aqui, humildemente pedindo para estudar um pouco, como um pobre tolo e sujo. Ah, eu também preciso de amor, dinheiro e álcool. Por fim, deixe-me esvaziar essas malas que já estão pesando muito.